terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O Segredo Mau

Ao abrir esta postagem, quero indicar um enlace mais do que interessante, onde encontrareis obras e instruções até então siligosas de determinadas associações herméticas:

http://upasika.com/

Sendo, eu mesmo, Embaixador e Enviado Especial do Summum Supremum Sanctuarium, o que me leva a divulgar esse sítio, que contém instruções que, a princípio, não se destinavam ao grande público?

Em primeiro lugar, o que está descoberto deixou de ser segredo.

Em segundo lugar, é certo que o Rosacruz ama a Justiça. E não seria justo deixar desconhecido de alguns algo que está na rede mundial de computadores.

Em terceiro lugar, reporto-me às minhas mensagens anteriores: as organizações rosicrucianas (FRA, FRC, AMORC, Max Heindel, Lectorium, OKRC etc etc etc) não são mais do que potenciais - frise-se: potenciais - portas de entrada para a Augusta Fraternidade Rosa+Cruz. Nem todo membro de uma organização rosicruciana qualquer será, um dia, um membro da Fraternidade Rosa+Cruz e nem todos os membros de nossa Confraria pertencem, ou pertenceram, a qualquer grupo rosicruciano.

Não basta estar com a mensalidade em dia; não basta receber monografias; não basta passar por rituais de iniciação. É o teu conhecimento aliado ao entendimento e à ação que atrairão a atenção de nossa Confraria, e esse processo está obviamente condicionado ao emprego de teu Coração, de tua Mente e de teu Corpo, sem qualquer ressalva, na Obra de Nosso Senhor.

Em quarto lugar, reproduzo um antigo discurso, contra o qual alguns se revoltaram, quiçá por medo de perder aquilo que - tal como tudo o mais que há neste mundo - apenas acreditam que têm. Ei-lo:

"Essa história de que 'não estamos preparados' para isso ou para aquilo pertence a um tempo que já passou. Os segredos, hoje, servem muito mais para dar identidade e manter a coesão de grupos do que para preservar quem ou o que quer que seja.
O "segredo" das sociedades iniciáticas pode ser resumido na seguinte fórmula, tão cara aos adeptos da tradição rosicruciana: - "Invoca sempre; inflama-te em oração". Bulwer Lytton teve a doçura de inserir tal fórmula em seu Zanoni, sob as seguintes palavras: - "Os pensamentos das almas, como a minha, que aspiram aos ideais divinos, são constante prece". Tudo o mais é necessário, apenas, como instrumental para que se compreenda a verdade e o alcance dessa fórmula. Infelizmente, os instrumentos têm sido apresentados como o fim, como a Obra em si mesmo considerada.
Não há qualquer segredo da Maçonaria, ou da Rosa-Cruz, ou dos Templários, ou do que seja, que seja potencialmente prejudicial ao ser humano. O que o é está na manipulação que determinadas organizações impõem aos seus associados, deitando-os sob o jugo de um vingativo "Cósmico", "G.A.D.U.", "I.H.V.H", "IAO" e à espera de um segredo que jamais desvelar-se-á.
- "Isto não pertence ao seu grau."
- "Somente os Mestres Secretos têm acesso a esse conhecimento."
- "Não seja arrogante, pedindo informações que apenas os que percorrem a longa senda de nossa ordem provam-se merecedores de obter."
Quem nunca ouviu esse tipo de ladainha? Na presente época, o adágio deveria ser:"Quando o discípulo está pronto, o mestre... desaparece". É uma pena que ainda digam o contrário.

- "E daí", perguntam-me alguns.

E daí?. Muitos se assustam com a simplicidade. Muitos lucram com a complexidade. Muitos demonstram desdém. A minha mensagem é clara: tem começo, meio e fim. O "e aí" é para quem ainda acredita em fórmulas secretas e milagrosas que um dia irão ser reveladas; para os que ainda acreditam que existe uma Palavra a ser encontrada - rectius, para os que ainda pregam ou aceitam que essa palavra só pode ser comunicada a poucos eleitos, pois "meros profanos" não têm - apenas por serem profanos - pureza de caráter nem mérito para recebê-la; para os que acreditam que ostentar um título ou pertencer a uma ordem os põe mais próximo de Deus, do Diabo ou de ambos; para os que são manipulados pela "maldição do Cósmico" e se riem daqueles que, segundo julgam, são manipulados pelos cleros.

O segredo mau? É o segredo da ilusão imposta por quem não encontrou O Caminho e, ainda assim, apresenta-se como orientador dos seus semelhantes.

"E daí?": devolvo-te a pergunta, pois já não busco mais a resposta.

Me parece correto afirmar que o treinamento que as organizações sérias proporcionam têm o condão de pôr o estudante em contato com realidades mais sutis. Mas não é verdade que a intensidade da prática ditará a qualidade dos resultados. Assim como nas artes marciais, o hermetismo requer que se dedique de corpo e alma. Mas, da mesma maneira que treinar na academia do mais conceituado Mestre de defesa pessoal não fará de você, necessariamente, um lutador de excelência, a não ser que você (1) queira sê-lo, (2) pratique as técnicas, (3) entenda os conceitos e (4) realmente se dedique à luta corpo-a-corpo, também o mero ingresso em uma organização hermética, o simples recebimento de monografias ou a prática mecânica, por si só, não farão de você alguém mais próximo das coisas divinas (se preferir, mais conhecedor de si próprio).

O que tenho visto nestas décadas de envolvimento com sociedades herméticas - e que definitivamente me causa horror - é a maldita manipulação pela exacerbação da vaidade.

Eu - que tenho os mais altos graus de diversas sociedades iniciáticas e as mais alta ordenação em várias linhagens apostólicas da Santa Igreja Gnóstica - lhe digo: graus não garantem evolução ou espiritualidade; associações a ordens e instituições de caráter espiritualista não implicam incremento da espiritualidade; ingressar em uma escola iniciática não torna ninguém "o escolhido" nem melhor do que os profanos; receber títulos e ser investido de autoridade e poderes ínsitos a tais organizações não significa autoridade nem poder espiritual.
Na verdade, deve-se ser extremamente cauteloso, para que tudo isto não importe na total inutilidade da senda hermética.

Quem está verdadeiramente apto a dizer se essa ou aquela pessoa está "preparada" para a Verdade?A verdade soar como mentira é um fenômeno meramente humano e tem muito mais a ver com o condicionamento e o apego às "verdades pessoais" do que com profanação.
Ouça: a verdade, assim como o amor, sempre liberta, ainda que, por vezes, ambos pareçam fazer sofrer.

- "Louco! Como você ousa fazer tais afirmações e encorajar a violação dos segredos?", brada alguém.

Parece-me ser este o vício de quem acaba de bradar: se preocupar por demais com a forma e deixar a essência em segundo plano (sendo essa a minha impressão, jamais poderá ser uma verdade, sequer pessoal).
Alguém, sendo maçom, diria que eu quebrei um segredo se dissesse, aqui mesmo, "Maquebenáque" ou "Jabulom"?
Quero crer que não, porque, com essa grafia e sem as chaves numéricas, essas palavras nada significam: são mera forma. Mas, cá entre nós, o "segredo" por detrás dessas mesmas palavras seria assim tão potencialmente perigoso, caso os "profanos" o descobrissem? Caso positivo, perigoso para quem e por quê? No fundo, elas, postas no contexto correto, apenas podem ajudar o buscador a dar um passo em direção à verdade, seja esta qual for. Tais palavras jamais serão, elas próprias, "a verdade". Portanto, o segredo essencial não está nelas nem na grafia "sagrada" nem nos números: nestes estão apenas segredos formais e, portanto, inofensivos do ponto de vista estritamente iniciático. Dado o apego das massas à aparência, à forma e ao instantêneo e o desprezo da essência, do espírito e do trabalho árduo, ensinar alguém a invocar um arcanjo cabalístico ou a evocar um demônio goético é, no mais das vezes, totalmente inócuo.

- "Irresponsável! Como você afirma, Frater ZadKiel, que invocar um demônio é, no mais das vezes, inócuo?"

Respondo: irresponsável seria afirmar que um demônio pode se pôr a serviço da desgraça de alguém, sem a ajuda dos demônios internos dessa pessoa. Se é verdadeiro o postulado hermético de que uma partícula divina nos habita (ou, como diriam os adeptos de determinadas tradições, que somos, nós próprios, deuses), a conclusão lógica é a de que nenhum ser essencialmente espiritual, como anjos e demônios, tem a capacidade de nos mover para fora d'A Estrada.
Repare que a Tradição postula que as evocações sejam feitas diante do triângulo mágico. O magista, por seu turno, se põe dentro do Círculo. O círculo é a representação do universo do magista. O triângulo remete à tridimensionalidade. Quando alguém evoca um "demônio", ele supostamente se faz presente dentro do triângulo, fora do círculo. Isto deve ser suficiente à conclusão de que esse "demônio" é uma realidade do próprio magista, que, nos estágios iniciais da sua formação, necessita pô-la para fora de si, para vê-la, entendê-la e talvez empregá-la a seu favor.
Quem evocaria um demônio do dinheiro, senão aquele que está pobre? Quem determinaria a um demônio que ferisse outrem, senão o covarde que não tem coragem para, ele próprio, resolver o que esteja pendente com seu desafeto? Na verdade, está-se abrindo um diálogo com uma parte de si que reclama conserto (também estaria correto - talvez ainda mais - se dissesse "que reclama concerto"), e, nisto, a evocação demoníaca não se diferenciaria em nada das preces levadas a Santo Antônio, por "X", que deseja que o "Casamenteiro" lhe arrume um matrimônio com "Y".

Não há nada em Magia que faça da pessoa mais rica, mais sexy nem mais inteligente em um segundo. Se alguém quer tal fórmula mágica, ninguém não pode dá-la, simplesmente porque não existe, jamais porque não se queira divulgar um segredo. Posso entregar um grimório de magia nigérrima para uma pessoa que queira derrubar seu inimigo sem qualquer crise de consciência, porque sei que as conjurações não terão qualquer efeito. Sobre o tema, recomendo a leitura de "Envenenamento mental", de Spencer Lewis, ou o texto introdutório do "Goetia", de Crowley.

"Tudo está na mente", diriam alguns budistas.
"Conhece-te a ti mesmo", diriam os freqüentadores de Delfos.

Que fique bem entendido: é esse tipo de conduta que classifico de Segredo Mau: a insistência na existência de segredos não-instrumentais em relação à Consecução. Quando alguém prega que está de posse de segredos capazes de tornar instantaneamente o ser-humano mais rico, atraente etc, assume a velha figura do mago-de-faz-de-conta, aquele que quer fazer crer que a divulgação dos supostos "segredos" pode causar um mal mais do que terrível e, assim, postula-se num time de "eleitos", ou seja, de poucos confiáveis para conhecer a mecânica dos sortilégios. Essa gente quer, por assim dizer, que acreditemos que a sua própria estatura espiritual se sobrepõe à de nós outros.

Enfim, longe de fazer apologia da divulgação do material que ainda permanece secreto em determinadas organizações, o que digo é: (1) esses "segredos" não têm o condão de, por si só, causar mudanças instantâneas no mundo objetivo. Portanto, sua divulgação não causaria qualquer mal nem bem aos chamados "profanos": seria inócua, totalmente inócua; (2) os "segredos", no fim das contas, conduzem sempre à fórmula decantadas pelos adeptos rosicrucianos: "Invoca sempre! Inflama-te em oração!". Citei essa mesma fórmula na roupagem que Bulwer-Lytton lhe deu: "o pensamento das almas que aspiram aos ideais divinos são constante prece". Posso, também, dizê-la sob forma zen-budista: "Acordar, comer, andar... tudo é Ch'an". E assim por diante.

O Segredo Mau é o segredo da manipulação. Os demais, ou são instrumentais, ou simplesmente inócuos."

"What happens when you say something that makes people think? They become afraid of you, and they neutralize your message by pinning a label on you which is not open to interpretation or is a postmodern puzzle piece in the endless laybrinth of fragmented realities." (Peter-R. König)

Um comentário:

Victor disse...

Excelente texto Frater...
Incrivel como esquecemos que a buscar por um "Espirito Evoluido" como diriam os Kardecistas, depende Basicamente do dominio do "EU" independente de segredos ou magias.
TFA. Zadkie!

ivictorhugoi@gmail.com