sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Cabala Mística


Com a devida autorização, passo a transcrever algumas notas extraídas de um antigo diário encontrado na biblioteca do Colégio do Espírito Santo, escrito por um Rosa+Cruz identificado como "Irmão Poimandres".
Faço-o a pedido e sem alterar qualquer passagem. Escreveu o Irmão Poimandres:

"SOBRE A ÁRVORE DA VIDA

Véus de Existência Negativa (acima da Árvore da Vida):
Ain (Não) - O vazio absoluto.
Ain Soph (Ilimitado) - O eterno, no mais puro sentido: se nada há, não existem limites.
Ain Soph Aur (Luz Ilimitada) - O eterno movimento: quando não há limites, as coisas acontecem simplesmente porque não há motivos para não acontecerem.

Árvore da Vida:

AS DEZ ESFERAS (Sephiroth; singular: Sephirah):

Kether - coroa
Chokmah - sabedoria
Binah - entendimento
Chesed - misericórdia
Gebura - força - vontade em ação
Tipheret - beleza
Netzach - vitória - imaginação criadora - emoções elevadas
Hod - Esplendor - mente universal
Yesod - fundamento
Malkuth - reino

A árvore da vida apresenta Deus sob o ponto de vista decimal.
Polaridades: Kether é positivo em relação a Chokmah, que é positivo em relação a Binah e assim por diante.

Serpente Nechushtan: Sabedoria e Iniciação.

OS TRÊS PILARES:

Centro: equilíbrio e consciência: neutro e estático.
Direita: misericórdia: positivo e ascendente - Jachin.
Esquerda: severidade; rigor/forma: negativo e descendente - Boaz.


OS QUATRO MUNDOS (OU UNIVERSOS):

Atziluth - emanação, plano divino. Adoração.
Briah - criação, plano dos arquétipos, idéias, arcanjos. Ética.
Yetzirah - formação, plano dos anjos. Aprendizado.
Assiah (Malkuth) - produção, plano físico, sistema solar visível. Vivência.

Logos - Projeto (Atziluth)
Arcanjos - Plano (Briah)
Anjos - Ordem (Yetzirah)
Elementais - Execução (Assiah)

Arquétipos são imagens primordiais, simbólicas e originais, acumuladas de forte carga energética.
Adam Kadmon é o Logos, não o Adão expulso do Paraíso.

No plano de Assiah, atuam os Chacras do Mundo, os Espíritos dos Planetas. Por exemplo, o chacra de Geburah é Marte, que não deve ser confundido com o planeta Marte, pois trata-se da imagem mágica de Marte, e não da esfera planetária física.

Em Briah, o arcanjo tem sua contraparte no demônio.

Em Atziluth, não há bem nem mal, pois se está fora do "sistema solar".

A invocação das forças de Atziluth não pode ser feita, senão mediante os arcanjos do plano de Briah; caso contrário, a personalidade humana seria destruída.

OS QUATRO PLANOS:
Neschmah (Intelectual) - Kether, Chokmah, Binah.
Ruach (Moral) - Chesed, Geburah, Tipheret, Netzach, Hod.
Nephesh (Astral, Físico-Emocional) - Yesod.
Guph (Corpo Físico) - Malkuth: resumo de tudo.

No homem:
As esferas da árvore: qualidades, aspectos.
Os caminhos que ligam as esferas: estados de consciência.
Três Pilares: forças cósmicas.
Três aspectos do logos: Kether (Yechidah)/Vontade; Chokmah (Chiah)/Amor; Binah (Neschamah)/Mente.

Deve-se subir a árvore e retornar ao físico, pois de nada vale o conhecimento sem sua aplicação concreta, assim como a experiência sem o conhecimento. Subida e descida, portanto, não estão associadas a bem/bom/mal/mau.

Vel de Queshet - o abismo menor, entre Yesod e Tiphereth: a noite da alma, quando o iniciado caminha isolado. Após atravessá-lo, une-se a seu eu superior ou Sagrado Anjo Guardião.

Vel de Paroketh - véu do templo, por trás de Tiphereth: o que se rompe com a crucificação. É análogo a Daath, mas numa oitava inferior.

Daat ("A Falsa Sephirah) - Abismo entre Tiphereth e Kether, pelo Pilar Central, acima das esferas de Geburah e Chesed - A união entre as forças sutis e a matéria.

A árvore qliphótica (projetada abaixo da Árvore da Vida):
Os qliphoth (singular: qliphah; tradução: conchas ou meretrizes) são as águas do caos. São as energias desequilibradas.
A árvore qliphótica foi formada pelo excesso das forças emanadas de Kether, projetadas nas águas inferiores, abaixo de Malkuth.

Rituais:
Devem ser iniciados com a invocação do Deus correspondente e finalizados com uma ação de graças, como se o objetivo já houvesse sido alcançado. Antes, porém, da invocação, é necessário meditar sobre a forma espiritual da Sephirah, pois o ritual deve principiar no plano espiritual.
Mesmo que pareça infrutífero, o ritual começa por imprimir na aura o benefício; depois, vem a manifestação física.

Deus é imanente e transcendente a um só tempo: o homem é uno com Deus.
A Magia pode ser subjetiva (transmutação da consciência) ou objetiva (efeitos físicos visíveis).
No princípio, o requisito básico para o magista é a Fé; com o sucesso, esta transforma-se em Certeza.
Em Magia, a dúvida é fatal.
O relaxamento é necessário às mensagens internas.

AS SEPHIROTH:

KETHER
- A Coroa -

Manifestação primeira d'O Imanifesto.
Equivale a Parabrahman.
Associação planetária: Netuno.
Imagem mágica: um rei idoso, de perfil direito. O lado esquerdo é como um livro fechado.
Arcanjo: Metraton.
Ordem angélica: Chaio-ha-kadesh.
Chacra mundano: Reshit ha gilgalim - redemoinhos, nebulosas.
Chacra humano: coronário - Yeshidah - chispa divina.
Nome divino: EHEIEH, que se relaciona com Atziluth.
E - começo;
HE - cristalização;
I - frutificação.
EH - cristalização.

Kether contém a ideia oculta dos sefiroth subsequentes.
Quem atinge seu estágio, dele não retorna.
Experiência: união com Deus.

Os quatro ases:
Paus: poderes do fogo;
Copas: poderes da água;
Espadas: poderes do ar;
Ouro: poderes da terra.

A jornada evolutiva consiste em fixar a individualização da consciência, de modo que a chispa divina mantenha sua individualidade no final da evolução.
E HE I HE = "Eu estou sempre em transformação". Trata-se do aspecto manifesto: o aspectooculto de Deus não está em transformação.

CHOCKMAH
- A Sabedoria -

Manifestação do aspecto masculino de Kether.
Yod, Falo, Torre, Pedestal.

Imagem mágica: homem barbado, viril, maduro.
Nove divino: Jeovah.
Chacra mundano: Urano / Mazloth.
Experiência: visão de Deus.
Virtude: devoção.
Conhecimento da polaridade, simbolizado pelo Caduceu de Mercúrio.
Lado esquerdo do rosto.
Arcanjo: Ratziel (pilar cinza com azul), o "Arauto de Deus".
Anjos: Seraphim ou Rodas (rodas cinzentas com fundo negro).

Os quatro "dois":
Paus: dominação;
Copas: amor;
Espadas: paz;
Ouros: modificação harmonioza.

BINAH
- Entendimento -

A mãe da forma. Entendimento interno, além da razão.
"A Grande Mãe". Dá forma à manifestação.
É menos abstrato do que Chockmah.
Yoni, Cálice.

Completa o triângulo superno: Kether, Aleph, ar primordial; Chockmah, Shin, fogo gerador; Binah, Mem, grande mar.

Entendimento + Sabedoria = Conhecimento (Daath).

Chacra mundano: Saturno, o planeta da estabilidade, conservador.
Nome divino: Jeovah Elohim.
Virtude: Silêncio.
Arcanjo: Zaphkiel.
Anjos: Aralim (Tronos), Seres Poderosos.
Lado direito do rosto.

Os quatro "Três":
paus - força;
copas - abundância;
espadas - infortúnio;
ouros - trabalhos materiais.

Em Binah, habitat da mônada, a fé se torna certeza.
A chave da Magia é a criação de formas ou canais para a manifestação de forças, e Binah é a mãe da forma.
Zaphkiel é o guardião dos Arquivos Akáshicos. É corretor e retificador (Carma).

CHESED ou GEDULAH
- A Misericórdia ou a Glória -

Imagem: Rei no trono, pacífico e legislador.
Experiência: Visão do Amor.
Chacra Mundano: Júpiter.
Braço ou ombro esquerdo.
Representa o estado de consciência dos Mestres da Sabedoria.
Virtude: obediência (à vontade divina).
Símbolos: cubo, cetro, vara, esfera.
Nome divino: EL (Aleph: começo; Lamed: movimento, coração do alfabeto hebraico).
Arcanjo: Zadkiel.
Anjos: Chamas cintilantes. Invocados, equilibram a mente e propiciam o autocontrole.
Tarô: Quatro "quatros": Paus - obra perfeita; Copas - prazer; Espadas - descanso após a luta; Ouro - poder terreno.
Chesed/Gedulah faz fronteira com o Justiceiro: Geburah.

GEBURAH
- A Fortaleza -

Imagem: Rei em guerra, em seu carro.
Chacra mundano: Marte.
Símbolos: corrente (lentidão), açoite (dinamismo).
Experiência: Visão do Poder.
Virtudes: energia e valor.
Títulos: Din - Justiça- e Pachad - Temor (ao ser supremo).
Pentagrama.
Adeptos Maiores / Espíritos Luciferinos.
Nome Divino: Elohim Gibor.
Arcanjo: Khamael (Punidor).
Anjos: Serafins, Potesdades, Serpentes de Fogo (anjos obscuros).
Quatro "Cincos": Paus (luta), Copas (prazer perturbado), Espadas (derrota), Ouros (conflito terrestre).

TIPHERET
- A Beleza -

É o centro de equilíbrio da árvore sefirótica. Completa o triângulo ético.
Nome divino: Jeovah-Eloah-Va-Daath.
Arcanjos: Raphael (Divino Médico) e Miguel (Arcanjo Solar).
Anjos: Malachin, Reis ou Virtudes.
Chacra Mundano: o Sol.
Experiência: Visão da Beleza Manifestada na Natureza; Equilíbrio da Árvore da Vida.
Imagem: Um Rei Magestoso (Melek, marido de Malkah - título atribuído a Malkuth); uma Criança, filha de Kether. A grande Face, que Tipheret produz numa espiral inferior; um deus sacrificado, que é a morte de uma energia que renasce em outro nível.
É o mediador entre o micro e o macrocosmo; representa o ponto mais baixo da individualidade.
Virtude: realização da Grande Obra (Cristo Interno).
Peito; plexo solar.

Reis elementais relacionados com Tipheret:
Paralda - Ar; Niksa - Água; Djin - Fogo; Gob - Terra (os reinos, em si mesmos considerados, se encontram em Malkuth).

Sílmbolos: Cruz, Lâmen, Cubo, Pirâmide truncada.
Cartas: os Seis - Paus - vitória; Copas - alegria; Espadas - êxito merecido; ouros - êxito material.

Em Tiphereth, ocorre a experiência conhecida como o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião.

(continua...)

sexta-feira, 20 de março de 2009

Assim florescerão tuas rosas (pelo Mestre Huiracocha)

Busca o Essencial.
Sabes tu, o que é o Essencial, Irmão querido?
Escuta: Todos os seres da Natureza, tudo quanto vês e não vês, todas as formas cristalizadas e mesmo aquelas que tua pobre retina não consegue espelhar, têm um ponto essencial, uma substância íntima, um espírito alado, inconsúteis pelos quais vivem e se desenvolvem.
Tudo o mais é secundário, acessório, mas não inútil.
A inutilidade não existe dentro da grande Obra do Universo.
Esses acessórios são meios, veículos, portadores, se assim se pode dizer, do Essencial.
O médio é mortal. Pertence à terra. O Essencial é eterno: pertence ao céu de nosso espírito.
Busca, pois, em tudo o Essencial.
Então, para buscá-lo, aprende estas sete regras e práticas. Tua Cruz far-se-á mais leve e tua Rosa emprestar-lhe-á seu sagrado perfume. Ouve:

1º - Põe em todos os teus atos uma finalidade e um alvo em todas as tuas coisas. Que elas sejam o desejo de descobrir o Essencial. Põe nisso toda a tua atenção e toma por armas o útil, e nobre, o bem e o belo. Desdenha todos os obstáculos que se interponham entre ti e tua busca.
Assim florescerão as Rosas sobre a tua Cruz.

2º - Sê alegre. Que a satisfação e a alegria brotem sempre de tua alma, até mesmo pelas menores impressões recebidas. Que as coisas mais insignificantes te encham de íntimo prazer. Tua essência é divina, pois Deus está em tudo que existe. É preciso, pois, perceber o Essencial mesmo no mais diminuto organismo.
Assim florescerão as Rosas sobre a tua Cruz.

3º - Aprende a respeitar a opinião sincera dos outros. Se os sente em erro, faze-lhes ver com doçura, sensatez e respeito a tua opinião autorizada, sem os magoar. O Essencial, o Divino fala também pelos demais homens, e, em breve, evoluindo, chegar-se-á à Verdade.
Assim florescerão as Rosas sobre a tua Cruz.

4º - Sai diariamente ao ar livre e admira a Natureza. Alegra-te e regozija-te com o Sol, o Céu, o Ambiente , as Flores, como humílimo verme que se arrasta pela terra. Observa que a Divindade existe em tudo e que a tudo dá o alento, o Essencial.
Assim florescerão as Rosas sobre a tua Cruz.

5º - Sê fiel aos teus amigos e assim terás amizades fiéis por isso, que no meio deles tu estarás. Embora sejas uma Entidade separada e isolada, sente sempre que não és mais que uma extensão do Divino. Medita nesse fato, compreende-o, ajusta teu comportamento a essa idéia e busca nela o Essencial.
Assim florescerão as Rosas sobre a tua Cruz.

6º - Relaciona-te com todos. Deves dar preferência, porém, àqueles que saibam mais que ti, para aproveitares a substância do que aprenderam. Assim, conhecê-los-ás e ama-los-ás. Tua observação te fará ver que são tal qual és. O Essencial, o Divino é o que sabem e é isso que deves buscar neles porque ainda não o tens.
Assim florescerão as Rosas sobre a tua Cruz.

7º - Concentra-te todos os dias. Verifica se detiveste a tua atenção em coisas acessórias, secundárias. Faze sempre um exame de consciência e responde à tua própria indagação. Se não te foi possível estares atento ao Essencial, trata de corrigir-te e busca, diariamente, essa essência divina que palpita em tudo o que existe. Assim progredirás, serás feliz e...
Assim florescerão as Rosas sobre a tua Cruz.

(Agradecimento ao Ir. Basílides, por ter digitado este texto).

terça-feira, 17 de março de 2009

Uma nota acerca da Igualdade, da Diferença e da Desigualdade

(texto de Marcelo Alexandrino da Costa Santos)

1. Liberté, égalité, fraternité: mote cujas origens remontam à Revolução Francesa e cujo alcance de – e compatibilidade entre – seus termos sempre geraram calorosas discussões[1].
Embora se reconheça a virtude da Revolução Francesa na consolidação da submissão do Estado e de seus agentes à lei e na consagração de direitos individuais em documentos constitucionais, é ingênua a análise que despreza o fato de que esse processo, desde sua gênese, esteve indelevelmente marcado pelo liberalismo, tanto em sua dimensão política – de não interferência do Estado na esfera de liberdade do cidadão – quanto em sua dimensão econômica – de abstenção do Estado no âmbito do livre mercado[2]. Nesse contexto, os direitos individuais de liberdade ganharam destaque, em detrimento dos direitos sociais de igualdade: livres eram os proprietários[3]; portanto, na lógica liberal, estes eram os iguais a quem a cidadania e os demais direitos individuais eram assegurados para além da simples retórica[4]. A igualdade era uma expressão da liberdade, que, por sua vez, era indissociável da propriedade, titularizada pelo chefe de família, o homem da casa, ninguém mais, ninguém menos, que o homem de cor branca.
Desse modo, o terceiro termo, fraternidade, nada mais poderia representar do que um pacto classista, que dividia a sociedade em blocos de amigos e inimigos. Afinal, se interpretada como a realização de uma comunidade harmônica e avessa ao egoísmo, a fraternidade se veria em franca oposição ao projeto liberal de autonomia individual, que propositalmente já reduzia o alcance da igualdade em benefício dos proprietários do sexo masculino.
Insurgir-se contra esse quadro, mesmo ao vento da Revolução, que pretendia desagrilhoar o ser humano e resgata-lo dos calabouços da tirania e da opressão, era correr o risco de compartilhar do terrível destino de Olympe de Gouges[5].
Muito mais do que um breve e superficial exame histórico, as linhas acima se prestam a evidenciar que qualquer análise sobre a igualdade deve estar atenta aos ditames ideológicos que, muitas vezes, restringem e subvertem o conteúdo e a dimensão de determinados valores e direitos, apresentando idéias artificiais como se não o fossem, para, assim, diante de uma falsa inexistência de alternativas, firmar o pensamento hegemônico. Portanto, para os fins deste escrito, a tarefa que a esta altura se impõe é identificar de que igualdade se fala, para que se possa analisar criticamente determinadas formas pelas quais se lhe transgride, ou seja, para que se possa discutir emancipadamente certas formas de discriminação.

II. Retornemos à Revolução Francesa na busca da resposta para a questão acima. Fazendo-o, deparamo-nos com a pertinente observação de Ana Rubio Castro[6], no sentido de que a burguesia ilustrada, ao estabelecer a igualdade como elemento de identificação em face do poder estabelecido e dos privilégios então instaurados, considerou a positivação desse princípio como o bastante para assegurar a sua consagração e manutenção. A isto se seguiu a crença de que, uma vez celebrado o pacto instrumentalizado na Declaração, a nova ordem jurídica e política, por si só, protegeria os direitos individuais e estabeleceria uma correta ordem social. Permeando esse discurso, estava a idéia de que a razão – na qual se fundavam os métodos liberais – levaria ao descobrimento da verdade e à concretização do universal, de modo que a exclusão de determinados grupos dos processos de tomada de decisão não afetaria o conteúdo moral do que dali viesse a emergir. Tal postulado, arremata a autora, “permitió sostener que los derechos del hombre y del ciudadano expresados en 1789, eran los derechos de toda la humanidad” e assim explica-se por que “durante tanto tiempo se haya creído que los derechos humanos de los varones son los derechos humanos de la humanidad”[7].
Caplan[8] também identifica a falha da pretensão de universalidade do discurso idealista da igualdade, tal como professado pela burguesia do século XVIII, apontando que, a despeito de sua afirmação abstrata, no mundo concreto, o que se verificou foi uma paridade de condições de exercício de direitos assegurada unicamente aos homens, ocidentais, brancos e proprietários, iguais apenas entre si. Por exclusão, todos os demais passaram a ser considerados “diferentes”, estabelecendo-se divisões supostamente legítimas em função do gênero, da etnia, da classe social, da origem geográfica ou de outra qualidade qualquer. Desta forma, uma vez que os “iguais” (proprietários) eram os destinatários da proteção legal, apresentava-se como natural a negação da qualidade de sujeito de direito aos não proprietários, o que teria dado (falsos) ares de legitimidade à discriminação dos trabalhadores.
As mulheres de Ana Rubio e os trabalhadores de Caplan, ambos grupos vitimizados pela discriminação, são testemunhas do encobertamento ideológico, do discurso naturalizante de premissas artificiais, referido na abertura deste ensaio[9]. E, tal como tantos outros grupos e classes de excluídos, revelam que a igualdade subjacente ao projeto liberal nada tem, para além da retórica, de universal: está divorciada do mundo real, em que cada ser humano é essencialmente diferente dos demais. Trata-se, portanto, de uma igualdade meramente formal, que se apóia no positivismo estático e descontextualizado da lei, que dissemina a discriminação e o preconceito “sob um discurso igualitarista cínico”[10], que dissipou os privilégios da nobreza e do clero, mas tem marcado e segregado os seres humanos de acordo com sua classe social, sua etnia, seu gênero, sua orientação sexual, sua origem geográfica, sua língua, sua posição hierárquica no processo produtivo etc.


III. Como se percebe, a igualdade formal acomoda uma série de discriminações, sobrepondo opressão a opressão. Por meio dela, manifesta-se subrepticiamente a ideologia do patriarcalismo[11] liberal, em que o Deus Mercado e seus subprodutos, feitos à imagem e semelhança dos homens brancos, ocidentais e abastados, atribuem-se legitimidade para subjugar a grande massa dos excluídos – que, apesar de representar a maioria esmagadora dos seres humanos, desencontra-se e rarefaz seu poder por subdividir-se, pelo fio da espada hegemônica, em tantas outras minorias, que, via de regra, não encontram amparo nos âmbitos público ou âmbito privado para estabelecer espaços de luta pelo acesso igualitário aos bens materiais e imateriais necessários à existência com dignidade.
É necessária uma boa dose de cautela, portanto, pois tanto a afirmação da igualdade abstrata e universal, quanto a afirmação da diferença embalada pela ideologia hegemônica têm o condão de perpetuar a exclusão e a opressão. Bem pondera Boaventura Santos que
a afirmação da igualdade com base em pressupostos universalistas, como os que presidem às concepções ocidentais, individualistas, dos direitos humanos, conduz à descaracterização e negação das identidades, das culturas e das experiências históricas diferenciadas, nomeadamente à recusa do reconhecimento de direitos colectivos. Mas a afirmação da diferença por si só pode servir de justificação à discriminação, exclusão ou inferiorização, em nome de direitos colectivos e de especificidades culturais[12].
Cautela, portanto: no território globalizado do predador patriarcal, a igualdade formal mascara a desigualdade material. Tal como esclarece Flores, o predador não apenas atribui status jurídicos diferentes em razão do sexo, da etnia, da classe social etc, mas também oculta as causas reais das diferenças decorrentes dessa prática: “la desigualdad material en el proceso de división social del trabajo y la consecuente exclusión del âmbito de lo político”[13]. Para escapar de sua ideologia e das verdades abstratas e imagens deformadas apresentadas como fatos e valores universais, deve-se fugir das “idealizaciones y abstracciones de, por ejemplo, lo ‘feminino’ natural, el trabajador ‘responsable’ o el ‘buen indígena’”, esforçando-se para criar “condiciones materiales que permitan ver, y actuar em, el mundo desde outra perspectiva”[14]. E, aqui, impõem-se dois cuidados: (1) evitar falar e refletir sobre as opressões e explorações que sofrem os coletivos afetados pelo predador de modo abstrato e homogeneizador, como se todos os seus integrantes fossem vítimas das mesmíssimas formas de dominação e exploração e sem considerar as opressões superpostas[15]; e (2) não acreditar que os conflitos sociais têm origem cultural e, portanto, devem ser resolvidos no campo próprio da cultura, pondo-se as questões sociais, econômicas e políticas de lado; afinal, “toda discriminación contra los colectivos excluidos del pacto social de la modernidad tienen orígenes políticos, sociales y económicos”, motivo pelo qual sua solução deve ser “política, social y económica y, como consecuencia (no como ‘a priori’), cultural”[16].

IV. Pois bem: a desigualdade material, abrigada pela igualdade formal, exige soluções materiais. Mas, antes, exige também uma abordagem material, em que as diferenças não sejam encaradas como sinônimos de desigualdades. Afinal, as diferenças sempre acompanharam o ser humano, quer por questões ligadas à sua natureza, quer por questões ligadas ao seu entorno: DNA, idade, sexo, cor da pele, altura, peso, voz e tantas outras características fazem dos seres humanos diferentes entre si, assim como o fazem classe social, língua, território de origem, educação etc.
No entanto, o que configura a desigualdade são as situações em que o ser humano é submetido à exploração, e/ou à discriminação, e/ou à dominação, e/ou à opressão alheia; em suma, situações em que, ao ser humano, são negadas condições para que, a despeito das diferenças que o acompanham, tenha acesso igualitário aos bens necessários à vida com dignidade. Entender isto é essencial, para que enxerguemos como a ideologia contamina discursos que, à primeira vista, apresentam-se coerentes e inspiradores, como a seguinte passagem de Jean-Jacques Rousseau:
Concebo na espécie humana duas espécies de desigualdade: uma, que chamo de natural ou física, porque é estabelecida pela natureza, e que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das qualidades do espírito, ou da alma; a outra, que se pode chamar de desigualdade moral ou política, porque depende de uma espécie de convenção, e que é estabelecida, ou, pelo menos, autorizada pelo consentimento dos homens. Consiste esta nos diferentes privilégios de que gozam alguns com prejuízo dos outros, como ser mais ricos, mais honrados, mais poderosos do que os outros, ou mesmo fazerem-se obedecer por eles[17].
Para além encobrir a desigualdade com a roupagem típica da diferença, Rousseau tenta naturalizá-la sob o argumento de que os seres humanos a consentem e, assim, autorizam a sua própria opressão. Ora, se o fazem, não lhes assiste o direito de reclamar, de resistir, de reivindicar, de lutar pela igualdade material, mas tão-somente o dever de resignarem-se ante os ditames de uma sina que lhes é imposta pelos que ocupam o outro lado do destino: nossos velhos conhecidos homens brancos e abastados, os mesmos que moldaram o Deus Mercado a sua imagem e semelhança.
Está claro, pois, que é preciso reconhecer as armadilhas ideológicas inseridas em textos e contextos pretensamente iluminados unicamente pela razão, a fim de que se possa partir para a investigação, o reconhecimento e a concretização “de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza desigualdades”[18]; em outras palavras, para o reconhecimento e a promoção da igualdade material, do “empoderamento dos seres humanos, desde uma perspectiva de integração, em oposição às práticas hegemônicas de exclusão, para assegurar-lhes dignidade”, o que, longe de implicar “uma redução dos seres humanos a uma condição idêntica”, importa na “garantia concreta de condições idênticas de viver suas diferenças”[19].

Confira o texto integral em: http://www.scribd.com/doc/22287238/Somos-todos-um-so-Um-breve-ensaio-sobre-a-des-igualdade-em-dez-tonalidades

[1] Ver a interessante entrada postada na Wikipedia: Liberte, Égalité, Fraternité. Disponível em: . Acesso: 10 fev. 2009.
[2] A esse respeito, cf. MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Hermenêutica constitucional e direitos fundamentais. 1. ed. 2. tiragem. Brasília: Brasília Jurídica, 2002. p. 108.
[3] PISARELLO, Gerardo. Los derechos sociales em el constitucionalismo democrático. Disponível em <>. Acesso em: 27 Dez 2008.
[4] Interessante observar, por exemplo, que o sufrágio censitário somente foi abolido na França em meados do século XIX, a despeito de a Declaração dos Direitos do Homem e dos Cidadãos, de 1.789, dispor que “os homens nascem e são livres e iguais em direitos” (artigo primeiro). A propósito, é de se registrar que a Constituição Francesa de 1.795 dispunha expressamente sobre o mínimo de bens necessários à aquisição da qualidade de eleitor (art. 35).
[5] Olympe de Gouges (pseudônimo de Marie Gouze) foi decapitada em 1.793, acusada de ser uma contra-revolucionária. Opositora declarada da escravidão, de Gouges expôs sua veia feminista com a publicação e submissão à Assembléia Nacional da França, em 1.791, da Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, ressaltando que o sexo feminino havia sido posto de lado na Declaração dos Direitos do Homem e dos Cidadãos de 1.789. Tal atitude lhe custou a vida após ter sido denunciada como contrarevolucionária e “mulher desnaturada”.
[6] CASTRO, Ana Rubio. Ciudadania y sociedad civil: avanzar em la igualdad desde la política. Por um nuevo pacto social. Disponível em . Acesso: 11 mar. 2009.
[7] Idem.
[8] CAPLAN, Luciana. O direito humano à igualdade, o direito do trabalho e o princípio da igualdade. Disponível em <http://bdjur.stj.gov.br/dspace/handle/2011/18864>. Acesso: 12 mar. 2009.
[9] Como Salienta Rodrigues, a “ideologia neoliberal dominante, como qualquer ideologia hegemônica em determinado período histórico, se apresenta enquanto ideologia da não ideologia [...] a ideologia mais eficaz é sempre a que não se mostra, a que não se expõe, senão enquanto dado naturalizado da realidade. A tudo impregna, mas, numa primeira percepção, em nada se deixa perceber”. RODRIGUES, Jorge Normando de Campos. Magistratura e neoliberalismo: os juízes do trabalho e a ideologia da destruição. 2007, 165f. Dissertação (Mestrado em Ciências Jurídicas Sociais). Universidade Federal Fluminense. p. 38. Disponível em . Acesso: 13 mar. 2008.
[10] CAPLAN, Luciana. ob. loc. cit.
[11] O termo “patriarcalismo” é utilizado por Flores em detrimento de “patriarcado” com o objetivo de afastar “las posiciones estáticas que nos inducen a pensar en una estructura de opresión autônoma con rspecto al resto de opresiones y dominaciones que dominan en las relaciones sociales capitalistas”. Sendo assim, o termo patriarcalismo “ten más que ver con el conjunto de relaciones que articulan un conjunto indiferenciado de opresiones: sexo, raza, género, etnia y clase social, y el modo en que las relaciones sociales particulares combinan uma dimensión pública de poder, explotación o estatus con una dimensión de servilismo personal”. Cf. FLORES, Joaquín Herrera. Descubriendo al depredador patriarcal. Disponível em: . Acesso: 13 mar. 2009.
[12] SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução: para ampliar o cânone do reconhecimento, da diferença e da igualdade. Disponível em . Acesso: 13 mar. 2008.
[13] FLORES, Joaquín Herrera. Ibidem.
[14] Ob. loc. cit.
[15] Por exemplo, aquelas que uma mesma pessoa possa sofrer como mulher, negra, trabalhadora, latina, pobre etc.
[16] FLORES, Joaquín Herrera. Ibidem.
[17] ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens. Disponível em . Acesso: 13 mar. 2009.
[18] SANTOS, Boaventura Sousa. ob. loc. cit.
[19] CAPLAN, Luciana. ob. loc. cit.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Escreve a tua história


Escreve a tua história com pulso firme e a letra bonita... Escreve uma bela história.

Não temas a dor, porque ela sempre passa. Não temas a vida, e presta bastante atenção, porque ela sempre tem uma lição. Não temas que o tempo talhe marcas no teu rosto, porque elas são as linhas da tua história, e isso é que faz de ti uma pessoa de verdade.

Lembra-te: o mundo das aparências é fugaz.
A felicidade não tem olhos, apenas coração.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

As forças que regem a vida

Existem três fatores que circundam a vida do ser humano: o mero acaso, o destino e as conseqüências.

O acaso tem a ver com os acontecimentos totalmente aleatórios, mais ou menos relevantes, que ocorrem em nosso cotidiano. Não os traçamos nem são ditados por nada ou ninguém. Podem influenciar nossos rumos, ainda que provisoriamente e mesmo a despeito de nossa vontade, nos abrir oportunidades ou não representar absolutamente nada de relevante.

Do destino, ocupam-se inteligências superiores, que, vez por outra, movem as peças do tabuleiro para nos criar certas oportunidades. Como é dito, oportunidades não se perdem: ou as agarramos, ou outros as agarram; portanto, o que faremos com os instrumentos que nos são postos à disposição está no âmbito de nosso livre arbítrio, isto é, as forças do destino apenas nos põem diante de determinadas situações, cabendo a cada um de nós reconhecer e decidir sobre o que fazer com as oportunidades que daí advêm.

As conseqüências, por seu turno, podem resultar de fatos da natureza, de terceiros ou próprios. Nas duas primeiras categorias (fatos da natureza e de terceiros), nosso livre arbítrio encontra-se mais rarefeito, mas, ainda assim, a natureza do aspirante à Rosa+Cruz o impelirá a exercer sua capacidade de observação para identificar oportunidades de engrandecimento, empoderamento e, sobretudo, de Serviço à Grande Obra.

Já os atos próprios nos chamam totalmente à responsabilidade. Afinal, não só estão diretamente vinculados ao exercício do nosso livre arbítrio, como têm o condão de refletir, de modo mais ou menos intenso, na vida alheia. Mesmo diante do mero acaso ou do destino, o Rosa+Cruz reconhece a responsabilidade ínsita a cada ato próprio, a cada escolha que faz, a cada palavra que profere. Servidor do Altíssimo, reconhece a Sombra das Asas que estão acima de si e propõe-se a transformar não apenas o Chumbo, mas até mesmo o Lodo, em Ouro e Luz espirituais, que potencialmente beneficiarão a si, aos que estão ao seu redor e à humanidade em geral.

A Fraternitas Rosicruciana Antiqua e sua influência telêmica


Conversando com um Irmão R+C acerca da natureza de algumas sociedades que se apresentam sob a denominação "Rosa Cruz", ressurgiu a velha questão: a Fraternitas Rosicruciana Antiqua é uma organização telêmica?

A ocasião não era propícia para uma exposição mais alongada, mas, por tratar-se de um assunto recorrente, certamente haverá novas oportunidades para debatermos sobre o tema.

Por ora, resolvi deixar aqui um resumo do entendimento que me resulta da vivência pregressa na FRA de Krumm-Heller, assim como na O.T.O. e na A.'.A.'. de Crowley:

(I) Se se pensa na literalidade de Thelema ("Vontade"), a FRA, como qualquer outra organização de cariz iniciático, é uma fraternidade telêmica. Afinal, não se pode prescindir da vontade no caminho da espiritualidade.

(II) Se, por outro lado, se pensa em Thelema como o sistema filosófico/mágico/religioso proposto por Aleister Crowley - dotado de elementos operativos, doutrinários e filosóficos de identidade própria, então a resposta não é tão linear. Senão, vejamos:

a - nenhum exercício prescrito por Crowley integra o currículo operativo da FRA, nem figura a doutrina telêmica em sua grade de estudos oficial.

b - Nenhum dos rituais formulados por Aleister Crowley é adotado em sua integralidade pela Fraternitas Rosicruciana Antiqua. Porém, aqueles que já tiveram a oportunidade de participar dos rituais de congregação da FRA, certamente perceberão a forte inspiração de dois deles em escritos de Crowley, notadamente Liber CCXX e Liber XV (o terceiro ritual é de antiquíssima origem greco-egípcia). A conhecida admoestação de Krumm-Heller, no sentido de que "tereis de dar conta de todos os vossos atos", em seguida do "Faz o que tu queres", é, em termos puramente iniciáticos, desnecessária. Afinal, quando se está a realizar e Verdadeira e Divina Vontade (Thelema), não há Carma a se temer.
Em diferentes passagens, Crowley cuidou de deixar claro que "Faz o que tu queres" não significa "Faz o que te agrada". Logo, a admoestação do Mestre Huiracocha, ou é sinal de um entendimento superficial da mensagem telêmica, ou expressa um excesso de zelo com a natural superficialidade dos membros recém-iniciados.
De uma forma ou de outra, isto não revela qualquer incompatibilidade da FRA em relação a Thelema, cabendo relembrar que, quando da elaboração dos Rituais pelo Mestre Huiracocha, o Novo Aeon ainda era bastante incipiente.

c - a magia sexual ritualística não é um elemento central no caminho proposto pela FRA, que se difere sensivelmente da vertente proposta por Crowley. Sem me alongar, posso afirmar que a utilização da energia sexual no sistema de Krumm-Heller guarda semelhanças com alguns sistemas orientais de "Alquimia Interna", compreendendo, ainda, o conhecimento e a aplicação dos biorritmos e dos tatwas. Krumm-Heller propunha um caminho monogâmico, passível de ser plenamente percorrido, independentemente do gênero do praticante, recomendando que se evitasse o que entendia como desperdício da energia sexual (o desperdício não vem do desuso, mas sim do mau uso).
No entanto, no final de sua vida, Krumm-Heller começou a delinear um curso de Magia Sexual, chegando a ter feito anotações sobre o texto-base da famosa obra "Magia Sexualis", atribuída a P. B. Randolph.  Sem dúvida, essa obra serviu de inspiração para a composição das ideias sobre magia sexual propagadas pela antiga (e extinta) O.T.O. e absorvidas por Crowley.
Aqui, cabe mencionar que o Capítulo XII da Novela Rosacruz faz referência aos manuscritos da Irmandade Hermética da Luz sobre o tema - textos sabidamente influenciados/escritos por Randolph e postos à base de escolas como a OTO de Theodor Reuss e o Collegium Pansophicum de Heinrich Tränker.
Logo, é correto afirmar que o Mestre Huiracocha reservava para o nível mais avançado da FRA a revelação de "segredos" (hoje, não mais tão secretos) de magia sexual, bem mais próximos do sistema do Mestre Therion do que a orientação inicial dada em seus livros, revistas e cursos.
Essa preocupação com a exposição reservada desses "segredos" pode ser facilmente explicada pela proximidade que o Dr. Krumm-Heller mantinha, também, com o Dr. Ernst C.H. Peithman (Basilides), fundador da Igreja Gnóstica de Eleusis - o qual repudiava publicamente as ideias de Crowley. Ao pretender-se sucessor de Peithman, Krumm-Heller obviamente não poderia reconhecer abertamente a validade das ideias sobre Magia Sexual que inspiravam e eram defendidas por Crowley.
Os que têm acesso às notas finais do Mestre Huiracocha saberão que a compatibilização dessas técnicas, a princípio tão distintas, se dá pela aplicação do que ele chamava de "sexualidade científica", isto é, pela utilização de um ou outro método de acordo com os biorritmos do praticante.

Como se vê, não há nada que permita desprezar a influência de Crowley sobre Krumm-Heller, que o considerava um verdadeiro Mestre, ao lado de Papus, Levi, Reuss, Hartman, Tränker e Peithman, por exemplo. Tal influência é inegável para qualquer membro do círculo interno da FRA e dá a esta um sabor próprio e especial, que a distingue das demais sociedades rosicrucianas. A insistente tentativa de criar uma barreira em relação a Thelema, além de artificial, tem sido causa de visíveis distúrbios intelectuais e energéticos entre os membros da Fraternidade.
O que se deve ter em mente é que a FRA se vale da leitura peculiar dada a Thelema pelo Doutor Krumm-Heller - ele próprio um Mestre de grande estatura espiritual, que soube enxergar a necessidade de adaptação dos sistemas iniciáticos vigentes em sua época às premissas do Novo Aeon.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Sobre o amor e a divisão

(Este escrito compartilha da natureza do Grau 8=3)
Li outro dia que devemos saber que aqueles a quem amamos, assim como aqueles que nos amam, volta e meia nos farão sofrer – e que devemos estar preparados para encarar esses episódios como incidentes naturais, próprios do dia-a-dia e da natureza humana.Olhar para trás basta para que percebamos que as coisas são realmente assim. Mas por quê?

O amor nos impele à união. Queremos estar juntos da pessoa amada, e o que há de mais óbvio nesta afirmação é que o amor nos atrai para um outro alguém. É, portanto, um sentimento que nos faz querer estar com um ser diferente por definição, em quem, no mais das vezes, depositamos o nosso sonho de completude e felicidade.

Simples, mas não fácil de se lidar com isso. Afinal, não raro, queremos que o ser amado seja sempre como o idealizamos. Porém, por mais próxima que seja do nosso ideal, a pessoa amada é tão complexa quanto nós, um universo por si só. E, justamente por isso, ainda que nos faça um milhão de vezes feliz, é certo que haverá um ou outro ponto que não corresponderá exatamente àquilo que idealizamos.

Nesse momento, a divisão se apresenta, e a dor vem de uma só fonte, quer a percebamos ou não: cada pessoa é única, e naturalmente haverá pontos em que essa realidade saltará aos olhos.Existem duas possibilidades, então: encarar a divisão como algo que separa, ou como algo que complementa. Compreender que a diferença do ser amado é naturalmente humana é o primeiro passo para que se engrandeça na complementaridade do amor. Não aceitar essa realidade pode fazer com que se queira mudar o outro. E será justamente esse capricho que fará do amor um sentimento que separa, contrariando a própria natureza do amor, que, lembremo-nos, nos impele à união.

A chave está, portanto, em perceber a dualidade, própria do ser humano e do próprio amor, como um instrumento de união, não de separação. A partir de então, tudo que soma - amizade, cumplicidade, solidariedade, carinho, gentileza, respeito, compreensão - cresce exponencialmente e afasta dramas e desgastes indesejáveis e desnecessários. Assim, pode o amor renovar-se e ser sempre como deve ser: puro, belo e essencialmente misterioso.